quarta-feira, 13 de maio de 2020

Reimprima-se ou reedite-se... de preferência, já!


             O mercado editorial no Brasil tem lá seus mistérios, não se pode negar, mas um dos maiores é porque algumas obras incensadas no mundo todo ou nunca saíram aqui ou foram editadas há tempos e praticamente não existem mais. Pior: alguns livros são publicados, fazem sucesso e nunca mais ouvimos falar daquele autor.
            Quais os critérios ou causas não sabemos, mas isso acontece há décadas, o que acaba privando alguns leitores de poder desfrutar de obras fantásticas na sua própria língua ou até ter a certeza de que uma série que gosta poderá ser lida até o final, na íntegra, com todos os detalhes e em boa tradução.
            Na lista das obras que já saíram no Brasil e se esgotaram, temos alguns exemplos claros de que não foi a qualidade da obra a causadora de seu próprio desaparecimento. “As bodas bárbaras”, de Yann Queffelec, sem dúvida é um dos livros mais fabulosos que já li na vida. No entanto, leitores mais novos jamais conhecerão a absurda qualidade desta obra, editada aqui em 1986 pela Guanabara e, infelizmente, esgotada há anos e de quem muitos sequer ouviram falar.
            “Aquela confusão louca na Via Merulana”, de Carlo Emilio Gadda, é outro exemplo. Um livro apontado por muitos críticos e leitores como fundamental também não é reeditado aqui há muitos anos. Assim como todos os quatro títulos que formam o “quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell, principalmente “Justine” e “Clea”. Aliás, as novas gerações nem devem saber quem foi o autor, um dos mais festejados pelo mundo afora.
            Na categoria de obras importantes de autores brasileiros, o exemplo mais triste é o do livro de Cornélio Penna, “A menina morta” (já citado aqui nesta coluna). Trata-se de uma obra ímpar, uma das primeiras que pode ser classificada como um “romance psicológico”, que influenciou diversos outros escritores e, no entanto, não pode ser encontrada a não ser em arquivos digitais pouco confiáveis.
            Mesmo livros conhecidos e reconhecidos são difíceis de serem achados fora da poeira dos sebos.  É o caso, por exemplo, de “O pássaro azul”, de Maurice Maeterlinck, só encontrado depois de muito garimpo entre os livros esquecidos nos depósitos e bancas mofadas, também cada vez mais raras hoje em dia.
            Outras obras nem foram cogitadas de serem editadas aqui, mesmo que sejam importantes em suas áreas de abordagem. É o caso de “A sedução do inocente”, de Fredric Wertham e “The image: a guide to pseudo-events in America”, de Daniel Boorstin, livros fundamentais para quem pesquisa nas áreas de quadrinhos e fenômenos sociais.
            Há também o caso de livros que não são nem tão antigos ou raros, mas que as editoras acham que não são dignos de uma reimpressão. “A vida dos animais”, de J. M. Coetzee é um título praticamente impossível de se achar, embora muita gente goste do autor e queira ler esta obra especificamente.
            Outros autores têm somente um título publicado por aqui, embora sejam donos de uma obra extensa. A escritora norte-americana de ascendência nigeriana Nnedi Okorafor só tem dois títulos publicados no Brasil (Quem teme a morte e A bruxa Akata), mas possui obras mais interessantes como “Lagoon”, por exemplo, que nem sabemos se chegará a nossas mãos um dia.
Ou seja, nós, leitores brasileiros, temos que ter muita paciência e olho vivo na reedições e garimpos em sebos!      

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