Nos últimos
tempos, por conta das invencionices sem pé nem cabeça das redes sociais, ela
acabou voltando à moda, mesmo sem ser ela mesma. Uma escritora diferente,
difícil de ser classificada e, apesar de incensada pela crítica, pouquíssimo
lida, principalmente pelas novas gerações. Clarice Lispector, a ucraniana que
se dizia mais brasileira do que muitos, marcou definitivamente a história da
literatura brasileira.
Uma de suas
obras mais festejadas, entre tantas famosas como “A hora da estrela” e “Água
viva”, por exemplo, “A paixão segundo G.H.” é um livro de difícil digestão mas
que, em algum momento, merece ser lido. Ao contar a banal história da dona de
casa G.H., que resolve fazer faxina num quartinho de hóspedes depois de
dispensar a empregada, Clarice Lispector acaba criando um libelo sobre a arte
de viver e suas idiossincrasias.
Se no meio do
caminho de Carlos Drummond tinha uma pedra, no de Clarice tinha uma barata.
Sim, porque ao entrar no quartinho, G.H. se depara com uma barata saindo de um
velho guarda-roupas e a esmaga com a porta do móvel. A partir da barata
semimorta (ou semiviva?) se desenrola toda a ação do livro.
Ação é maneira
de dizer, uma vez que o livro é um discurso quase sem pausa, um monólogo
ardente, às vezes monótono, muitas vezes confessional, mas que se passa num dia
dentro de um apartamento onde uma mulher repassa sua visão de mundo ao se
defrontar com uma barata. Não se pode discutir mais a fundo o livro sem
adiantar os acontecimentos para quem ainda não a conhece, mas é um bom cartão
de visitas à obra desta interessante e diferente escritora.
Mulher linda e
atraente, sempre considerou vencer pelo talento literário e, se não teve grande
reconhecimento em vida, foi graças à natureza inquietante de sua obra. Mesmo
doente, nos últimos anos, em que padecia de um câncer nos ovários, ainda ditava
linhas e mais linhas aos mais próximos. Todas muito particulares e carregadas
de uma filosofia própria, mas sempre curiosas.
E, mesmo que
tenham se passado tantos anos, sua obra permanece atual e desafiadora. Se você
ainda não leu nada de Clarice Lispector e quer ir além das falsas frases soltas
na Internet, vale a pena ler “A paixão segundo G.H.”. Um livro difícil,
instigante e misterioso, ao seu modo. Garanto que é diferente de quase tudo o
que você já leu e que, com certeza, irá transformar você de algum jeito... para
melhor ou para pior.
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