quarta-feira, 13 de maio de 2020

Clarice e a barata


Nos últimos tempos, por conta das invencionices sem pé nem cabeça das redes sociais, ela acabou voltando à moda, mesmo sem ser ela mesma. Uma escritora diferente, difícil de ser classificada e, apesar de incensada pela crítica, pouquíssimo lida, principalmente pelas novas gerações. Clarice Lispector, a ucraniana que se dizia mais brasileira do que muitos, marcou definitivamente a história da literatura brasileira.
Uma de suas obras mais festejadas, entre tantas famosas como “A hora da estrela” e “Água viva”, por exemplo, “A paixão segundo G.H.” é um livro de difícil digestão mas que, em algum momento, merece ser lido. Ao contar a banal história da dona de casa G.H., que resolve fazer faxina num quartinho de hóspedes depois de dispensar a empregada, Clarice Lispector acaba criando um libelo sobre a arte de viver e suas idiossincrasias.
Se no meio do caminho de Carlos Drummond tinha uma pedra, no de Clarice tinha uma barata. Sim, porque ao entrar no quartinho, G.H. se depara com uma barata saindo de um velho guarda-roupas e a esmaga com a porta do móvel. A partir da barata semimorta (ou semiviva?) se desenrola toda a ação do livro.
Ação é maneira de dizer, uma vez que o livro é um discurso quase sem pausa, um monólogo ardente, às vezes monótono, muitas vezes confessional, mas que se passa num dia dentro de um apartamento onde uma mulher repassa sua visão de mundo ao se defrontar com uma barata. Não se pode discutir mais a fundo o livro sem adiantar os acontecimentos para quem ainda não a conhece, mas é um bom cartão de visitas à obra desta interessante e diferente escritora.
Mulher linda e atraente, sempre considerou vencer pelo talento literário e, se não teve grande reconhecimento em vida, foi graças à natureza inquietante de sua obra. Mesmo doente, nos últimos anos, em que padecia de um câncer nos ovários, ainda ditava linhas e mais linhas aos mais próximos. Todas muito particulares e carregadas de uma filosofia própria, mas sempre curiosas.
E, mesmo que tenham se passado tantos anos, sua obra permanece atual e desafiadora. Se você ainda não leu nada de Clarice Lispector e quer ir além das falsas frases soltas na Internet, vale a pena ler “A paixão segundo G.H.”. Um livro difícil, instigante e misterioso, ao seu modo. Garanto que é diferente de quase tudo o que você já leu e que, com certeza, irá transformar você de algum jeito... para melhor ou para pior.  

Apocalipse Now


           A pandemia de coronavírus está deixando muita gente curiosa para obras de cunho definitivo e, se existe uma temática atraente na literatura deste século é, sem dúvida, o apocalipse. Se for zumbi, então, nem se fala. De Stephen King a Justin Cronin, passando pelos estreantes M. R. Carey e Hugh Howie, muitas obras abordam as visões de fim de mundo que povoam as mentes mais criativas.
            A vontade de imaginar um fim ou um futuro distópico para o mundo não é obra exclusiva do século XXI. Começa bem antes com obras como o desconhecido “O último homem”, da mãe de Frankenstein, Mary Shelley.
Passa por “A máquina do tempo”, “Alimento dos deuses” e “O país dos cegos”, todos de um dos pais da literatura de ficção científica, H. G. Wells. 
Continua com “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. Chegando, nos anos 60, a “Laranja mecânica”, de Anthony Burguess e “Planeta dos macacos”, de Pierre Boule.
            Mas, nunca se escreveu tanto sobre o fim dos tempos como agora... ou como nas duas últimas décadas. O mestre Stephen King contribuiu com “Dança da morte” e “Celular”, sendo o primeiro um dos mais volumosos trabalhos de King, com mais de 1300 páginas. Conta a história da dizimação do mundo como conhecemos por causa de um vírus letal, além da eterna disputa entre bem e mal no meio de todo o caos.
            Já “Celular” não foi muito bem recebido pelos fãs. Muitos alegaram que a metáfora dos males da tecnologia, concebida em cima de telefones móveis que transformam pessoas em loucos furiosos, era óbvia e rasa demais.
            Já “A passagem”, de Justin Cronin, tal qual “Dança da morte” é sobre algo que dá errado em experiências científicas que querem criar um super soldado. Para isso, doze condenados são usados como cobaias. A obra, que tem dois outros volumes (“Os Doze” e “A cidade dos espelhos” ) tem seus defensores ardorosos.
            Um pouco fora desse estilo, mas igualmente apocalíptico, é o interessante “A menina que tinha dons”, de M. R. Carey, que é mais o estilo zumbis-sedentos-de- sangue. A diferença está justamente na menina Melanie, que dá nome ao livro, e na maneira criativa que Carey (roteirista conhecido de HQs como Lúcifer e X-men) imprime à sua narrativa, fazendo da menina zumbi a heroína da trama. Foi transformado em filme “Melanie, a última esperança (2016)”, com Glenn Close no meio de um elenco praticamente desconhecido.
            “Silo”, de Hugh Howie, “Caixa de pássaros”, de Josh Malerman e “Aniquilação”, de Jeff Vandermeer fazem a linha “depois-que-tudo-acabou-só- sobramos-nós” e também encontram fãs inflamados, embora o livro de Vandermeer seja o mais criticado entre os três, mesmo sendo apenas o primeiro volume de uma trilogia
(“Autoridade” e “Aceitação”). Virou uma produção da Netflix com Natalie Portman, mas a reação foi tão fria quanto a reservada ao livro.
            Na contramão de quase todos, “Vivian contra o apocalipse”, da estreante Katie Coyle é para leitores mais refinados, embora possa ser acusado de ser um romance adolescente disfarçado em uma banal distopia apocalíptica, não deixa de ter lá seus atrativos. Também numa linha mais indireta temos o ótimo “A noite devorou o mundo”, de Pit Agarmen (pseudônimo do escritor francês Martin Page).
            Claro que não se pode esquecer das obras referenciais de Max Brooks. Os seus “Guias de sobrevivência a zumbis”, “O desfile da extinção” etc., embora não falem de apocalipse em si, mas do que restou dos seres humanos depois de tudo, são obras que inspiram muitas outras, como os gibis de “The walking dead” e séries de terror de segunda classe.
            Mas, sendo zumbi ou não, a verdade é que escrever sobre o fim do mundo parece ser uma ótima maneira de ganhar dinheiro e divertir os fãs das fantasias fatais. Pelo menos até que algum vírus real acabe com tudo de verdade...

O estranho e curioso caso da Menina Morta


Sem medo de errar, podemos dizer que um dos autores brasileiros menos conhecidos de todos os tempos é o carioca Cornélio Penna (1896-1958). Escritor, pintor, gravador e desenhista, Penna participou ativamente da segunda fase do Modernismo no Brasil e pode ser tranquilamente considerado um dos pais do chamado “realismo psicológico” na literatura.
Penna escreveu quatro livros (Fronteira (1935), Dois romances de Nico Horta (1939), Repouso (1948) e A menina morta (1954)) e deixou um inacabado (Alma Branca) ao falecer com 61 anos. Mas, nenhum alcançou a fama de sua estranha menina.
“A menina morta” foi publicado 60 anos depois da abolição da escravatura no Brasil, mas sua trama se passa ainda nos tempos do Segundo Império, nos últimos tempos da escravidão. A atmosfera estranha que mistura regionalismos com investigação psicológica, além dos capítulos enxutos, causou impacto, mas por outros motivos que não a estética.
Uma fazenda de café no Grotão é o cenário do livro, que parte da morte da filha mais nova de um dos senhores da fazenda. O fato termina por colocar os personagens em conflito e acaba sendo mais uma discussão social em torno da escravidão do que um romance propriamente dito.
Muitos estudos e teses já foram publicados sobre esse mitológico livro pouco conhecido e muito menos lido, mas uma obra interessante é “Favor e melancolia”, de Simone Rossinetti Rufinoni (Nankin/Edusp, 2010). Existe uma cópia digital do livro para o Kindle, mas a própria Amazon não está mais comercializando-a. Um aviso diz que a cópia não é confiável!
Nos sebos é praticamente impossível de se encontrar e, quando isso acontece, o preço não vale a pena. Resta aos que querem conhecer a obra-prima de Cornélio Penna apenas paciência e torcer por uma reedição.  


Reimprima-se ou reedite-se... de preferência, já!


             O mercado editorial no Brasil tem lá seus mistérios, não se pode negar, mas um dos maiores é porque algumas obras incensadas no mundo todo ou nunca saíram aqui ou foram editadas há tempos e praticamente não existem mais. Pior: alguns livros são publicados, fazem sucesso e nunca mais ouvimos falar daquele autor.
            Quais os critérios ou causas não sabemos, mas isso acontece há décadas, o que acaba privando alguns leitores de poder desfrutar de obras fantásticas na sua própria língua ou até ter a certeza de que uma série que gosta poderá ser lida até o final, na íntegra, com todos os detalhes e em boa tradução.
            Na lista das obras que já saíram no Brasil e se esgotaram, temos alguns exemplos claros de que não foi a qualidade da obra a causadora de seu próprio desaparecimento. “As bodas bárbaras”, de Yann Queffelec, sem dúvida é um dos livros mais fabulosos que já li na vida. No entanto, leitores mais novos jamais conhecerão a absurda qualidade desta obra, editada aqui em 1986 pela Guanabara e, infelizmente, esgotada há anos e de quem muitos sequer ouviram falar.
            “Aquela confusão louca na Via Merulana”, de Carlo Emilio Gadda, é outro exemplo. Um livro apontado por muitos críticos e leitores como fundamental também não é reeditado aqui há muitos anos. Assim como todos os quatro títulos que formam o “quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell, principalmente “Justine” e “Clea”. Aliás, as novas gerações nem devem saber quem foi o autor, um dos mais festejados pelo mundo afora.
            Na categoria de obras importantes de autores brasileiros, o exemplo mais triste é o do livro de Cornélio Penna, “A menina morta” (já citado aqui nesta coluna). Trata-se de uma obra ímpar, uma das primeiras que pode ser classificada como um “romance psicológico”, que influenciou diversos outros escritores e, no entanto, não pode ser encontrada a não ser em arquivos digitais pouco confiáveis.
            Mesmo livros conhecidos e reconhecidos são difíceis de serem achados fora da poeira dos sebos.  É o caso, por exemplo, de “O pássaro azul”, de Maurice Maeterlinck, só encontrado depois de muito garimpo entre os livros esquecidos nos depósitos e bancas mofadas, também cada vez mais raras hoje em dia.
            Outras obras nem foram cogitadas de serem editadas aqui, mesmo que sejam importantes em suas áreas de abordagem. É o caso de “A sedução do inocente”, de Fredric Wertham e “The image: a guide to pseudo-events in America”, de Daniel Boorstin, livros fundamentais para quem pesquisa nas áreas de quadrinhos e fenômenos sociais.
            Há também o caso de livros que não são nem tão antigos ou raros, mas que as editoras acham que não são dignos de uma reimpressão. “A vida dos animais”, de J. M. Coetzee é um título praticamente impossível de se achar, embora muita gente goste do autor e queira ler esta obra especificamente.
            Outros autores têm somente um título publicado por aqui, embora sejam donos de uma obra extensa. A escritora norte-americana de ascendência nigeriana Nnedi Okorafor só tem dois títulos publicados no Brasil (Quem teme a morte e A bruxa Akata), mas possui obras mais interessantes como “Lagoon”, por exemplo, que nem sabemos se chegará a nossas mãos um dia.
Ou seja, nós, leitores brasileiros, temos que ter muita paciência e olho vivo na reedições e garimpos em sebos!      

Páginas molhadas

O sexo sempre foi uma das coisas mais fascinantes para o ser humano e, ousaria dizer, continua sendo. Basta ver o quanto ainda discutimos ...